terça-feira, 27 de abril de 2010

Questão de (des)gosto.







"Açucar, tu para mim não és mais do que açucar"
E desfazes-te amargamente nos meandros da minha língua
Que brinca com o (des)gosto de me fazeres dançar.




segunda-feira, 26 de abril de 2010

Palavras.




Mas o que é que tu queres que eu escreva?





Nada que materialize em palavras vai ser alguma vez mais do que isso: palavras (letras juntas numa ordem formal sem nexo).

sábado, 24 de abril de 2010

25 de Abril do ano de 1974



Vós, nossos anjos-guerreiros cativos,

Que pela formosa e fresca Liberdade

De amor perdidos e, assim soltos e vivos,

Marcharam sobre as ruas da cidade:

Armas na mão, coragem no coração.

Trouxeram o povo unido, quais crentes,

Movidos ao som da esperançosa canção

E passos de soldados, capitães e tenentes

Fervorosos, ansiosos, gloriosos.

Essa luta feroz mas desarmada

Prostrou os muros andrajosos

Sob o verniz já quebrado da calçada.

E em divino espectro celestial,

A Liberdade se levantou e beijou

Todo este nosso pequeno grande Portugal,

E plantou em cada peito de guerreiro

Um cravo vermelho e um voo de gaivota.



E foi por vós, por nós, povo aventureiro,

Que traçámos na História nova Rota.








"Dentro de ti, ó cidade / O povo é quem mais ordena (...)"

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pensamento (ir)racional.



Eu acho que nem os livros da biblioteca, que nos espreitam curiosos, sabem o que dizemos entre nós, em linguagem de código.





E tu sabes, ou sou eu que estou a perceber-me a mim própria?









Andas a estrangular o meu pensamento racional.

sábado, 17 de abril de 2010

História(s).



Eu lembro-me de vivências que pertencem à memória de outras pessoas.



"- Mãe, o que é a História?"

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Jogo.

E brincamos os dois, a estes jogos de amantes que de amor nada têm (nem querem ter), no meio de folhas e livros de mil páginas indecifráveis.



- E se o jogo deixar de ser jogo, meu amor que não és meu? Que vamos nós fazer? Continuar a jogar?




É que pressinto que vou ser eu a perder...





"Me and you what's going on?"

segunda-feira, 29 de março de 2010

Glória divina?



"Morro e mato em nome Teu,
Deus mascarado de bom.
Qual mártir elevado sou eu
Aclamado em grande tom.

Cruzado, servo da suprema Fé,
Lavo do mundo estes impuros
Que nos levam os filhos de ré.
Esses brancos tão escuros.

E com glória me entrego a ti Alá,
Molhando o mundo em sangue
Dessas vis criaturas de alma má.
Eu, desfeito, fervoroso, exangue..."

E Deus, esse cordeiro manso e protector,
Delicia-se com um manjar de inocentes
Ao som dos lamúrios das gentes em dor
E abandona-os, só porque não são crentes.




"Então, Deus infundiu a paz ao Seu Mensageiro e aos fiéis, e enviou tropas – que não avistastes – e castigou os incrédulos; tal é a recompensa dos que não crêem." - frase do Alcorão

domingo, 21 de março de 2010

Revolução.



Lavras tu o campo ó ceifeira
Com essas mãos gretadas;
Larga a foice, deixa a eira
Anda pra rua cantar quadras!


Pregas e lixas tu carpinteiro
Essa madeira tosca e farposa;
Deixa de ser meio inteiro
Anda pra rua gritar prosa!


Tu aí que coses, costureira,
Esse fato de guerra mais a meia
Levanta esse olhar de guerreira,
Anda pra rua já cheia!


Ó meu caro Operário de aço,
Tu aí, em construção
Deixa o martelo e o cansaço
Anda pra rua e levanta a mão!


E tu ó povo trabalhador?
Cada um de cada lida,
Deixai lá esse ardor
Andem pra rua lutar pela vida!


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Fecha a janela.

"-Feche a janela que está a começar a chover."

E contudo a velhota não a fechou, nem se moveu. Ficou a ver a intempérie que se abatia sobre um mundo tão velho e cansado que já nada fazia para se abrigar, que já nem sequer fechava a sua janela, nem tão pouco se movia perante o caos que nele reinava.

"-Minha mãe, feche a janela que ainda apanha uma pneumonia!"

Mas as mãos rugosas, caídas no regaço da velha senhora não se moveram. Aquele vento gélido e aquela chuva agreste que lhe batiam no rosto crespo de quem muito já havia vivido, faziam-na sentir um sopro de vida que lhe fazia esquecer alguém por que esperava.

"-Avó, que está a fazer?! Não vê o temporal que está a deixar entrar?! Feche a janela!"

Mas p'ra quê fechar a janela que tanto estimava? Era dali, daquela cadeira de baloiço adormecida colocada estrategicamente e não sem esforço perto daquela janela, que aquela idosa partilhava da velhice e do definhar de um mundo ainda mais velho e rugoso que ela. Não ia fechar a janela, mesmo que os seus membros desengonçados ainda o permitissem. Já não sentia os dedos tortos (que as artrites, quando se é velho, não poupam ninguem), já batia os poucos dentes que tinha e tremia mais ainda do que quando estava a bordar. Mas não se moveu, não soltou um suspiro nem chamou pela filha nem pelos netos. E a tempestade não dava tréguas, nem à pobre velhota! Gritou, bateu, rosnou, uivou, atacou com todas as forças aquela janela (que por sinal se aguentou bem). E a velhota lá estava a arcar com ela, ou melhor, a aceitar o convite do mundo que com ela queria partilha-la . Afinal, nunca se deve rejeitar um convite de um velho.

"-Mãe! Não acredito que está aqui nesta ventania e toda molhada! Está louca!" - e a filha da velha senhora foi finalmente fechar a janela.

No dia seguinte, a velhota ficou doente: era pneumonia. Morreu nesse mesmo dia, por sinal bem soalheiro e agradável. E aquela janela por onde partilhava o mundo nunca mais foi aberta.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Eu tentei dizer.



Hoje não me consigo exprimir por palavras, mas deixo aqui tudo o que tenho a dizer.

sábado, 30 de janeiro de 2010

"A menina dança?"


- A menina dança?



-Teria o maior prazer mas receio bem que não me tenham dado pés de bailarina.



E ao acabar a frase vomitou todo o tédio que andava há tanto tempo a corroer-lhe o estômago, p'ra cima do fato aprumado e bem amaneirado dele. Depois beijaram-se sofregamente e partilharam aquele vómito que acabou um tanto ou quanto salivado. E naquela mesma noite até dançaram, meios desengonçados, meios vomitados, meios apaixonados.



Mas não viveram felizes para sempre.






Fim

domingo, 17 de janeiro de 2010

Criança idosa.


Hoje molhei as rugas da minha mão
Com lágrimas de uma criança
Que trago comigo, na minha solidão
E que me traz uma restia de esperança.

Hoje fui uma criança idosa.
E no meu peito cansado
Deus plantou uma rosa.







"O meu passado é tudo o que não consegui ser." - Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fumo.

Fumo
De um cigarro calado
Embala o ar já cansado
De uma viagem sem rumo.





quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Amor Combate.



Perdi uma luta contra mim e ganhei a tua.
Agora, sou soldado deserto caido no chão
Por ter perdido as asas numa qualquer rua.
Larga as tuas armas amor, e dá-me a mão.

Pra quê lutar mais contra quem já desistiu?
Deixa-me só dar-te mais um beijo
Assim, com estes lábios crespos de quem ja sentiu
Nesta nossa luta a derrota de um desejo.

Voa amor, voa sem me levar
Que se Deus asas nos deu,
Essas asas são pra voar.




"Mas só quando quiseres pousar da paixão que te roer(...)"








segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Loucura.

Já dizia Fernando Pessoa "Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?". E tomando as suas divinas palavras, apresento aqui o mote destas linhas que aqui planto.



Loucura... Loucura é coisa de loucos! Desses que estão (ou deveriam estar) nos asilos, acorrentados à sua própria consciência, que assim vai definhando? Aqueles loucos, que ouvem vozes ou que falam sozinhos ou até psicopatas? Pergunto eu: a isso chamam loucura? Pois eu digo que loucura é pensarem que são eles aos quais me refiro! Louco, é aquele que sai dos padrões extremamente estandardizados que a sociedade impõe a si própria como se a própria liberdade a prendesse. Louco, não é com certeza um doente mental ou será talvez, se estiver mal diagnosticado por esses médicos frios, matemáticos, sufocados e automaticamente comandados pela mente (que lhes mente) que lhes consome todo o significado de loucura. Confusão louca esta?


Mas então que é esta loucura que não advém de nenhuma doença mental? Bem, se assim acontecesse todos teríamos de ser internados num hospício! Porquê? Ora porque somos todos loucos!


Mas o que é essa loucura que já me está a deixar louca? Se perguntasse a um homem (ou mulher) comum (um dos tantos sempre iguais como se tivessem todos saído da mesma fábrica e consoante as gerações, mais ou menos apetrechados e desenvolvidos) se é louco(a), automaticamente diria que não e provavelmente me tomaria a mim por louca por fazer tal pergunta e ainda por cima a um estranho! Ora burros são os que chamam loucos sendo que esse alguém também o é. De hoje em dia as pessoas fecharam-se numa concha e reprimem cada vez mais a sua condição de seres humanos. Hoje é mais importante ser rico, famoso, bem sucedido e bem aceite na sociedade do que encarnar as virtudes humanas. Mas que humanidade é esta? Que estranhos alienígenas nos tornamos? Que liberdade temos para sermos verdadeiramente Homens afinal? Que vontade esta de abafarmos a nossa condição, as nossas características, a nossa loucura! Esta loucura sobre a qual tenho estado a escrever.


E que loucura já vai neste texto! Mas este aglomerado de bestas sadias está em tal condição por ter renunciado à loucura! Mas que bestas que se julgam deuses superiores! Andamos aqui todos sobre o jugo da razão e do presente que nos esquecemos de ser quem somos. Culpa da sociedade? Não a culpo, porque a sociedade é um conjunto, cada um está entregue a quem é e cada um impõe a si o seu próprio jugo. E se é besta então a culpa é sua! Não dos outros!


Quem não é louco está morto, é o tal cadáver que anda aí a fingir que vive. Aí nesse dia-a-dia presente, identifica-se com um passado (que nada tem de seu) e espera por um futuro automatizado, digitalizado, matemático, calculista, esquematizado onde encontrará a eterna felicidade (tão podre como este cadáver).


Mas, meus amigos, este cadáver já nem procria! Aí Fernando Pessoa é obsoleto.


Mas então que é esta loucura de que estou aqui a falar à tanto tempo mas não vou dizendo nada acerca dela? Esta loucura, tão inerente ao Homem mas que este tenta apagar, como se nojo tivesse a isso, essa loucura é sonhar! Somos só um sonho e é de sonho que somos feitos, é de ilusões, de futuros sonhados que a vida nos leva à vida. E somos todos loucos, somos todos sonhadores! E saber tomar a loucura nas mãos, como loucos que todos somos. Não é andarmos aí dia e noite acordados, mecânicos, no turbilhão de ideias e acontecimentos ridículos desta realidade que nos vai tomando e sugando a nossa vida por cada fio de sonho, esperança e liberdade que ainda nos possa restar. Resta-nos a nós saber ser loucos e (sobre) viver.


E tu ó louco(a), já sonhas-te hoje?









"À parte disto tenho em mim todos os sonhos do mundo."


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Gelo.

Caíram-me os dedos, gelados pelo sopro do teu beijo que tentei desesperadamente guardar nas mãos.

"(...)brincar aos amantes com jogos de amor."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ego(centrismo).

Não sei viver sem mim e sou ridicula assim, presa a um egocentrismo que me ecoa na cabeça e me estrangula a tua imagem (que ironicamente se parece comigo).





Queria abrir os olhos e ver que o mundo é todo meu e que num egoísmo estupido, caprichoso, eu fosse dele também.





Que parva, julgar este coração descompassado que faz girar o mundo em torno dele só porque sim, porque é meu.





E tu, (sim, tu que lês) porque me alimentas esta fome insaciável de me querer sempre a mim?






"(...)perco-me de amores pelo espelho, mas do outro lado nao está ninguém. E quem queria eu que estivesse? Pff! Ridiculo!"



sábado, 5 de dezembro de 2009

Barulhos.

os nossos risos foram abafados pelo barulho ensurdecedor do bater do meu gigante coração.

na ânsia desesperada de o calar, calei o teu também.

agora no meu peito reina o silêncio.





"(...)eu abro a dor de ser quem sou, de tudo amar."

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Piano.


percorri todas as teclas do teu piano, sem pressas nem desafogos e na ultima nota soou o silencio.









é de mim ou tu também te calas-te?



terça-feira, 10 de novembro de 2009

Janela aberta.




Hoje deixei voar a saudade, mas esqueci-me de fechar a janela.







"I think you're the same as me, we see things they'll never see."